A Fórmula Que Vai Matar a Superficialidade Com IA
- Olucasgarcia

- há 3 dias
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Todos estão falando sobre a revolução que a I.A está trazendo para o mundo.
Porém, poucos estão falando sobre algo muito maior:
Como as estruturas sociais, de consumo e de comportamento humano devem mudar completamente nos próximos anos para algo altamente previsível, mas “inesperado” pela maioria das pessoas.
Essa tese pode ser resumida através de uma fórmula simples:
D = A + P - S Demanda por profundidade = Adoção da IA + Produtividade Gerada pela IA - Aceitação de Superficialidade
Vou explicar cada variável ao longo desse texto. Mas antes, preciso te levar por um caminho que começa muito antes da inteligência artificial.
A superficialidade não começou agora
Existe uma ilusão coletiva de que o mundo se tornou superficial por causa das redes sociais. Não é verdade. As redes sociais apenas aceleraram algo que já estava em movimento há mais de dois séculos.
Quando a revolução industrial tirou o artesão da sua oficina e colocou o operário na linha de montagem, algo mudou na relação entre o ser humano e o que ele produz. O sapateiro que fazia um par de sapatos do zero, conhecia o couro, sentia o material, entregava algo com seu nome... foi substituído por alguém que aperta um botão. O produto deixou de carregar identidade. Passou a carregar escala.
Isso não é uma crítica. É um fato. E esse fato criou um efeito cascata que durou séculos.
A televisão trouxe consumo passivo. Pela primeira vez na história, milhões de pessoas assistiam à mesma coisa ao mesmo tempo sem produzir nada em troca. O rápido já tinha feito algo parecido, mas a TV adicionou imagem – e imagem hipnotiza de uma maneira que o som sozinho não consegue.
Depois veio a internet.
Depois as redes sociais.
Depois o Smartphone.
Cada uma dessas camadas adicionou velocidade e volume à superficialidade. O ciclo de atenção humana foi sendo comprimido: de horas para minutos, de minutos para segundos. Hoje, literalmente temos pessoas viciadas em vídeos de TikTok e Instagram que duram 15 segundos. Todos apenas leem headlines de jornais – então, quanto mais chamativas e absurdas, mais reposts você ganha. Você tem cinco segundos para conquistar e vender seu produto. Grandes influenciadores vendem 10 milhões de produtos ao mesmo tempo.
Literalmente milhares de coisas superficiais simultaneamente.
Mas aqui está o o ponto que quase ninguém percebe: o que estamos vivendo hoje não é um acidade. É o ápice de um ciclo de 200 anos. E todo ápice precede uma queda.
Agora, para complementar tudo isso, reflita sobre você mesmo:
Quantas vezes na última semana você abriu o celular sem motivo nenhum? Quantos conteúdos você consumiu que não lembra de nenhum? Quantas conversas você teve que não passaram de “tudo bem e você?” Quantas roupas no seu guarda-roupa você nem lembra que existem?
Se essas perguntas te incomodam, é porque você já sente o que estou descrevendo. Você já está no limite.
A IA como aceleradora do extremo
Todos sabem que a I.A já alterou o mundo. Ela é a bola da vez, com impacto direto em como passamos a interpretar nosso dia a dia.
Claro que nem todo ser humano nesse planeta está ligado a isso. Se você tem pais mais velhos, provavelmente eles não têm ideia do que é Claude.
Tudo isso acontece porque, assim como qualquer coisa nova, a IA está passando pelo ciclo clássico de adoção de tecnologia. Ainda estamos entre os “adotantes iniciais” e a “maioria inicial”. Na verdade, eu diria que estamos 100% em adotantes iniciais – já que mesmo entre as pessoas que utilizam I.A hoje em dia, ainda estão muito mais focadas em utilizá-la como uma espécie de Google do que realmente explorando todas as suas capacidades.

E esse ponto é fundamental para entender a tese. Porque o avanço da IA não é medido apenas pelos modelos ficando mais potentes a cada mês, isso é o lado tecnológico. O verdadeiro avanço, o que muda o mundo, é a adoção. É quando as pessoas de fato passam a usar essa tecnologia no dia a dia. E ainda estamos no começo disso.
Estou explicando tudo isso porque parte do que sustenta toda essa tese reside justamente no imenso ganho de produtividade e volume que a I.A está trazendo e que vai se multiplicar absurdamente à medida que a adoção escalar.
Com a I.A se tornou trivial publicar 10 artigos por dia. Ter milhares de ideias. Fazer milhares de vídeos. Escrever livros inteiros em uma semana. Fazer dezenas de publicações nas redes sociais antes do café da manhã.
Se você entra em qualquer rede social hoje, consegue ver diretamente: vídeos com a tag “Gerada por I.A”, textos que são claramente regurgitações do ChatGPT, imagens que nenhum humano tocou. E tem aqueles casos em que você não sabe se foi ou não gerado por I.A – o que, se um conteúdo gera essa dúvida numa parcela significativa de pessoas, já é basicamente uma depreciação (rs).
A I.A está fazendo com o conteúdo o que a revolução industrial fez com os sapatos: escala infinita, identidade zero.
Isso é a I.A adicionando mais uma camada – talvez a mais potente de todas – ao ciclo de superficialidade que já estava no limite.
O cérebro humano como constante
Agora vem a parte mais interessante de tudo isso.
Por mais que existam todas essas milhares de tecnologias e avanços, uma coisa continua imutável por pelo menos 300 mil anos: o cérebro humano.
Nosso hardware biológico não mudou. As mesmas estruturas neurais que faziam um homo sapiens buscar conexão em volta de uma fogueira são as que fazem você sentir um vazio depois de 40 minutos scrollando o Instagram.
O córtex pré-frontal que evoluiu para resolver problemas complexos de sobrevivência está sendo alimentado com vídeos de 15 segundos sobre nada.
E algo muito interessante sobre o comportamento humano:
Todo extremo faz com que seres humanos eventualmente migrem para o extremo oposto.
Isso não é opinião minha. É um padrão documentado ao longo da história.
Robert Greene descreve isso com precisão:
“Ao longo da história, testemunhamos ciclos contínuos de ascensão e queda dos níveis de irracionalidade. A grande era de ouro de Péricles, com seus filósofos e seus primeiros impulsos do espírito científico, foi seguida por uma era de superstição, cultos e intolerância. Esse mesmo fenômeno aconteceu após o Renascimento italiano. O fato de esse ciclo estar destinado a se repetir continuamente faz parte da natureza humana.”~ Robert Greene, As Leis da Natureza Humana
Greene está falando sobre ciclos de racionalidade e irracionalidade, mas o padrão é o mesmo para qualquer extremo comportamental. Incluindo a superficialidade.
Quando a revolução industrial massificou a produção e matou o artesanato, surgiu o movimento Arts & Crafts no final do século XIX. William Morris e outros artistas literalmente criaram um contra-movimento: voltar para o feito à mão, para o objeto com alma, para o trabalho com significado. Eles olharam para a fábrica e disseram: “isso não é o suficiente para o espírito humano”.
Quando a urbanização acelerada do século XX afastou as pessoas da natureza, surgiram os movimentos ambientalistas. O Walden de Thoreau virou bíblia. E gerações inteiras começaram a buscar reconexão com o natural.
O padrão é sempre o mesmo: aceleração → saturação → contra-movimento em direção ao oposto.
E é exatamente aqui que estamos.
Os sinais da mudança
O que eu quero dizer com tudo isso é que finalmente estamos chegando no extremo possível da superficialidade. Relações superficiais, conteúdos superficiais, interações superficiais e até vida superficial é o nosso cotidiano médio.
A I.A trouxe outra camada de toda essa superficialidade. Porém, diferente de todas as outras – vídeos, influencers, conteúdos descartáveis – essa camada veio para ficar. Assim como a revolução industrial, essa revolução tem um impacto direto e significativo na produtividade humana. Pela teoria dos jogos, é algo que não vai deixar de ser utilizado, a menos que tenhamos algum cataclismo que faça a humanidade regredir tecnologicamente (mas nesse cenário teríamos problemas maiores, rs).
Então, minha tese: vamos para um novo extremo. Um extremo onde as pessoas busquem o que todo ser humano fundamentalmente quer – conexões, experiências e relações profundas.
E isso já está acontecendo. Vou te mostrar onde.
1. Fast Fashion → Slow Fashion
A Shein é o símbolo perfeito do ápice da superficialidade no consumo de moda. Roupa que custa menos que um café. Que você usa uma vez e joga fora. Que foi produzida por alguém que você nunca vai conhecer, numa fábrica que você nunca vai visitar, com um material que não vai durar três lavagens.
A Shein, Renner e várias outras são os super-heróis do fast fashion. Mas presta atenção no que está acontecendo silenciosamente do outro lado.
O mercado de roupas de segunda mão está crescendo duas a três vezes mais rápido que o de roupas novas. Plataformas como Vinted e Depop explodiram nos últimos anos. E o mais revelador: quando pesquisadores perguntam por que as pessoas estão comprando vintage e segunda mão, a resposta número um não é sustentabilidade. É a busca por peças únicas, com qualidade e com história. Pessoas estão ativamente rejeitando o descartável – não por culpa ambiental, mas porque querem algo que signifique alguma coisa.
Até a Fashion Week – o templo máximo da indústria – já colocou modelos desfilando com roupas de segunda mão no eBay’s Endless Runway.
Quando a própria indústria que inventou o descartável começa a celebrar o duradouro, o sinal é claro.
O conceito de “capsule wardrobe“ – ter um guarda-roupa reduzido com peças que realmente significam algo – está crescendo silenciosamente. Pessoas estão escolhendo ter 15 peças boas em vez de 150 descartáveis.
Estão buscando composições de maior duração, conexão com a mensagem da marca, memória afetiva com aquela peça específica. E não tem problema lavar a mesma peça três vezes na semana.
Isso é profundidade substituindo volume.
2. Influencers → Autenticidade
O modelo do mega-influencer que vende tudo está saturando. Aquela pessoa que a cada dois stories, dois são de vendas. Que é de uma maneira na frente das câmeras e outra por trás delas. Que não fala nada com nada, mas tem milhões de seguidores.
Esse modelo não vai morrer amanhã. Mas está perdendo força de uma maneira que poucos percebem.
Presta atenção em quais formatos de conteúdo mais cresceram nos últimos anos: o podcast longo e as lives. Conversas de 2, 3 horas. Sem edição. Sem roteiro perfeito. Pessoas reais gravando e falando por horas em um ambiente não controlado, sem cortes, sem filtros. Pessoas falando como pessoas falam.
Joe Rogan não se tornou o maior podcaster do mundo por ser superficial. Se tornou porque ele deixa as conversas durarem o tempo que precisam durar. Porque ele faz perguntas que realmente quer saber a resposta. Porque ele não tem medo de parecer burro. As lives seguem a mesma lógica – horas de conteúdo cru, onde a pessoa não consegue se esconder atrás de edição. É o oposto absoluto de um reels de 15 segundos com uma frase de efeito e uma música de fundo.
As pessoas estão migrando para criadores menores, mais crus, mais reais. Pessoas que estão ali mostrando quem elas são e não se importam se vai gerar hate ou não. Pessoas que falam coisas que você não concorda às vezes – e é exatamente isso que as torna confiáveis.
Porque uma pessoa que nunca discorda de você provavelmente está te vendendo algo.
Influencers vão continuar existindo. Mas a escala vai diminuir, e o que vai crescer são conexões reais – seja com amigos próximos (o ciclo interno), seja com criadores que genuinamente são quem dizem ser.
3. Headlines absurdas → Busca por entendimento
Essa talvez seja a mudança mais contraintuitiva de todas.
A melhor coisa que aconteceu para o combate às fake news é a I.A.
Parece paradoxal, eu sei. A mesma tecnologia que pode fabricar uma notícia falsa convincente em 3 segundos é a mesma que vai forçar as pessoas a pensarem mais antes de acreditar em qualquer coisa.
Isso porque agora, diante de qualquer informação, a dúvida é inevitável:
“Será que isso é realmente verdade? Será que foi uma I.A que escreveu isso? Será que esse vídeo é real?”
Quando tudo pode ser fabricado, a única defesa real é profundidade de entendimento. Não dá mais para simplesmente aceitar a primeira headline que você lê.
Você vai precisar, por instinto de sobrevivência informacional, tentar entender temas mais profundamente antes de formar uma opinião.
A I.A não vai resolver o problema das fake news.
Mas vai tornar a superficialidade informacional tão arriscada que as pessoas vão ser empurradas, quase à força, para buscar mais profundidade.
Por que isso é inevitável
É aqui que a fórmula faz todo o sentido:
D = A + P - SDemanda por profundidade = Adoção da IA + Produtividade Gerada pela IA - Aceitação de Superficialidade
Vamos destrinchar cada variável com o contexto que construímos.
Adoção da IA (A): lembra do ciclo de adoção de tecnologia que mencionei antes? Ainda estamos nos adotantes iniciais. Isso significa que a variável A ainda nem começou a escalar de verdade. Quando a maioria inicial – seus pais, seus tios, seu vizinho – começar a usar IA no dia a dia, o impacto dessa variável vai ser exponencialmente maior do que qualquer coisa que vemos hoje. A adoção é o que transforma a IA de uma ferramenta de nicho em uma força estrutural que muda o comportamento de populações inteiras.
Produtividade Gerada pela IA (P): essa é a variável que representa o avanço tecnológico em si. Cada novo modelo mais potente, cada nova capacidade, cada salto de performance. À medida que os modelos evoluem, a quantidade de conteúdo, produtos e interações que podem ser geradas explode. Volume sobre volume sobre volume. Isso amplifica a superficialidade disponível no mundo a um ritmo sem precedentes. E esse avanço tecnológico não vai desacelerar – cada mês traz algo que não existia antes.
Aceitação de Superficialidade (S): aqui está o contrapeso. Essa variável não é infinita. O cérebro humano – aquele hardware de 300 mil anos – tem um limite de tolerância para a superficialidade. Nós precisamos de profundidade. De conexão real. De coisas que signifiquem algo. E a cada nova camada de superficialidade que a IA adiciona ao mundo, a tolerância humana diminui.
A demanda por profundidade tende a crescer à medida em que a adoção da IA se amplia e a produtividade gerada por ela é incrementada, enquanto a aceitação da superficialidade funciona como um contragosto que nos afasta da nossa natureza.
Pela teoria dos jogos, mais uma vez, algo fundamentalmente ligado ao cérebro humano, a IA é algo que não vai deixar de ser utilizado. Quem não usar, perde. Então as variáveis A e P só vão crescer.
E como S tem um limite humano, o resultado é matematicamente previsível: D cresce. A demanda por profundidade aumenta.
Não é uma questão de *se*.
É uma questão de *quando*.
O que isso significa na prática
Basicamente, minha tese afirma que os humanos vão buscar coisas, relações e laços que de alguma maneira pareçam profundos e autênticos.
Basta ter em mente: quanto mais superficial for algo, mais vai tender nos próximos meses e anos a ser desvalorizado por cada um de nós.
Isso vale para moda. Para conteúdo. Para relacionamentos. Para marcas. Para negócios. Para a maneira como consumimos informação.
E vale, inclusive, para o mercado financeiro – tenho toda uma tese de investimento com relação a isso, onde a economia real (energia, saneamento, produção de alimentos) passa a ser mais valorizada do que modelos puramente digitais que não tocam o mundo físico.
Mas isso é assunto para outro texto.
Minha aposta
Em suma, isso não vai acontecer da noite para o dia.
É algo que leva tempo. Estamos falando de uma mudança estrutural, não de uma tendência passageira.
O Arts & Crafts levou décadas para se consolidar como resposta à industrialização. Os movimentos ambientalistas, isto é, o conceito de que a natureza próxima do ser humano é algo que nos faz bem, levaram gerações para entrar na consciência coletiva.
Essa mudança vai seguir o mesmo ritmo. Gradual, mas inevitável.
E é algo que estou apostando com todas as minhas fichas.



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